sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

RESENHANDO : ESPIRITISMO DIALÉTICO

Em Espiritismo Dialético, José Herculano Pires compara os preceitos preconizados por Marx e Engels no materialismo dialético à função do espiritismo como uma doutrina também dialética capaz de revolucionar o mundo através da criação de uma “consciência humanista”.
Herculano Pires inicia seu texto explicando o materialismo dialético marxista e identificando-o como um “pássaro de asas quebradas que, apesar de bater com energia a asa que lhe sobrou intacta, não consegue elevar-se além da poeira da terra”. Tal afirmativa deriva do fato de que a elaboração da dialética moderna teria sido frustrada ao se escolher um dos contrários como sendo o bom e o outro como sendo o mau. Neste caso específico, o materialismo dialético teria escolhido bom somente o princípio material em detrimento do espiritual.
Sendo a dialética estabelecida pelo confrontamento entre os opostos, ao se excluir um dos opostos, Marx e Engels teriam tomado a exclusão pela síntese.
Mesmo apontando as falhas do materialismo dialético, José Herculano Pires posiciona-se claramente como marxista ao longo de todo o texto, chegando a afirmar que Marx e Engels teriam se tornado “credores de todos os que (...) desfrutam hoje da possibilidade de uma caminhada mais rápida aos rumos da civilização socialista”.
O autor, no entanto, alerta para o fato de que os marxistas de sua época (um século após Marx) ainda persistiam no erro da “asa quebrada”, não respeitando o processo próprio da dialética.
José Herculano entra, então, no território daqueles que, alegando fazer ciência preferem negar experimentações como as de Crookes e Richet a fim reafirmar sua teoria materialista cuja “base se esvai aos olhos de todos, com a própria evaporação da matéria, na era da física nuclear”. 

As críticas feitas por Engels em um artigo de 1898 no qual ele criticaria os trabalhos de Crookes, Aksakoff e Zöllner é explicada por Herculano como sendo devido ao “espírito da época”. No entanto, a utilização de tal artigo no século XX como única fonte daqueles que desejariam negar a realidade dos fenômenos espíritas seria, segundo o autor, contrária ao próprio exemplo de Engels no que diz respeito à experimentação própria.
Segundo Engels, não seria possível menosprezar a dialética impunemente. Concordando com ele, Herculano cita vários casos nos quais a dialética foi utilizada para estabelecimento da verdade comprovando a teoria espiritualista. O autor cita Charles Richet que mesmo após presenciar vários casos de materialização somente teria se convencido da sobrevivência da alma após Ernesto Bozzano ter-lhe demonstrado dialeticamente “a obscuridade das teorias que atravancam a sua própria ciência”.
Cita também Cesare Lombroso, criminologista e psiquiatra, crítico do espiritismo, que acabou por aceitar a filosofia espírita após assistir pessoalmente a várias sessões de materialização através da médium Eusápia Palladino, nas quais teria tido a oportunidade de presenciar a materialização de sua própria mãe.
A intenção de Herculano ao citar tais casos e confrontá-los com as teorias de autores contrários à existência dos fenômenos espíritas é a de comprovar o total desprezo de tais autores pela dialética.
Indo mais profundamente na questão da dialética, Herculano expõe a interpretação materialista e espiritualista do Homem. Para Marx o homem seria resultado “da ação simultânea do trabalho, sobre ele e a natureza”. Ou seja, “agindo sobre o meio em que vive, trabalhando-o, ele se modifica a si mesmo”. No espiritismo, entretanto, essa visão seria ampliada pelo conceito de que o princípio inteligente independeria do corpo. Tal visão tornaria o espiritismo uma filosofia combatida tanto por religiosos como por materialistas.
O espiritismo ao se apresentar como uma filosofia assentada na observação e na experimentação, torna-se, por natureza, dialético. Revelando-se, dessa maneira, como “o legitimo e natural herdeiro do título a que se candidata o materialismo dialético: síntese do conhecimento”. A ciência, a filosofia e a religião apareceriam, então, no espiritismo encadeadas, uma resultando da outra, em um verdadeiro processo da mais pura dialética, como afirma Herculano Pires:
“Partindo da observação e da análise dos fenômenos materiais, de natureza supranormal, criamos a filosofia do ser, e atingimos, logo a seguir, a religião”.
No entanto, apesar de sua natural dialética, o espiritismo parece, segundo o autor, também deformar-se, perdendo o seu equilíbrio e pendendo às vezes para um sectarismo e misticismo de uma nova religião ou para a estrutura materialista de uma simples observação metapsíquica, conforme explicita o autor.
A solução, segundo Herculano, seria a compreensão dos princípios espíritas como doutrina dialética capaz de ser aplicada a todos os ramos da ciência. Sua razão de ser seria a de indicar ao homem o caminho seguro das transformações sociais. Para tanto, o autor defende uma maior penetração da bibliografia espírita nas massas através “de compêndios culturais e manuais populares”.
Herculano Pires defende o ativismo espírita em detrimento da passividade de alguns espíritas para os quais “a lei de causa e efeito explica e resolve todas as coisas, cabendo-nos apenas compreendê-la e aceitar passivamente sua ação”. A ideia de que a transformação deva ocorrer primeiramente no homem para que a estrutura social se transforme é combatida pelo autor como sendo um “equívoco de fundo místico”.
O autor defende que a renovação do homem somente implicará em renovação social se o homem renovado se empenhar em transformar o meio em que vive, colocando, inclusive, esta tarefa como sendo “a indeclinável obrigação espírita”. A função do espiritismo, portanto, seria a “renovação integral do homem, não apenas do homem na sua expressão individual e transitória, mas na sua permanente expressão coletiva”.
O espiritismo, então, deveria encontrar sua própria maneira de agir diferentes das utilizadas no religiosismo clássico e no materialismo dialético. Herculano defende a idéia do estabelecimento de fundamentos sólidos e definidos do espiritismo dialético.
O texto de Herculano Pires é utilizado como prefácio da obra Dialética e Metapsíquica do filósofo argentino Humberto Mariotti publicado em 1951 e reflete com clareza a força da idéia marxista vigente à época em todos os campos do conhecimento acadêmico.
Como filósofo, Herculano não poderia deixar de ter sofrido essa influência, assim como o filósofo argentino Mariotti, sendo compreensível a utilização de termos marxistas assim como a defesa da idéia de um mundo que caminharia inevitavelmente para a consolidação do socialismo. Idéia esta que caiu por terra junto com o muro de Berlim e fez ruir toda a concepção evolucionista de modo de produção defendida por Marx.
É necessário que se compreenda com clareza o posicionamento de Herculano e sua posição como pensador do século XX altamente influenciado pelas idéias vigentes à época para que não cometamos o erro de fazer uma leitura de seu texto de forma anacrônica.
Como o próprio autor explicita, a dialética é anterior à Marx, e a defesa de um espiritismo dialético aparece no texto de Herculano comparada ao materialismo dialético de Marx por ser esta a filosofia com mais força na época, sendo, por isso, o material mais próximo e mais atual para ser utilizado quando o texto foi escrito.
Tal posicionamento não diminui a contribuição de Herculano para um “pensar” espírita diferenciado. O autor impele-nos para a ação acreditando que a atitude espírita é o que será capaz de modificar o mundo. Tal modificação viria através de uma consciência humanista decorrente de uma maior popularização da filosofia espírita.
Uma análise posterior à época de Herculano nos revela, entretanto, que a divulgação da filosofia espírita se deu independente de uma organização de um movimento coletivo espírita, mas através da reforma individual de alguns homens que agiram de maneira a deixar a marca do espiritismo ou das idéias espiritualistas na sociedade como um todo.
Esse foi o caso de Chico Xavier, contemporâneo de Herculano Pires, que ao aparecer em um programa de TV, Pinga Fogo, fez crescer a curiosidade da população para com o espiritismo tornado-se, não somente por este fato, mas em especial pela sua atitude de vida, o maior divulgador espírita brasileiro.
Posterior a ele, outras pessoas não tão conhecidas, também fizeram a sua parte contribuindo na divulgação dessa filosofia que, como disse Herculano, seria capaz de criar a consciência humanista na sociedade. A ponto de hoje, no Brasil, ser possível assistir a novelas com tal temática ou mesmo se ter filmes produzidos por grandes companhias baseado em obras espíritas.
A dialética espírita, ou espiritismo dialético, no entanto, ainda se constitui como uma necessidade a ser observada. A essência dialética do espiritismo não pode ser deixada de lado, para que não incorramos no mesmo erro que cometeu a Igreja Católica, ao longo de sua história, ao não permitir o confrontamento de ideias, a contradição.
O espiritismo foi codificado por Kardec a partir do método científico dedutivo, através da observação e experimentação. No entanto, hoje é encarado somente como uma doutrina a ser seguida pelos fiéis que aprenderam a ler sem analisar, questionar, ou confrontar.
Herculano Pires, mesmo quando analisando os fatos dentro da ótica de seu tempo, ainda pode ser considerado extremamente atual.

José Herculano Pires (1915-1979), jornalista, filósofo, tradutor e intelectual espírita brasileiro, foi autor de obras sobre espiritismo, filosofia e parapsicologia.

(Texto Espiritismo Dialético foi prefácio da obra Dialética e Metapsíquica, do filósofo portenho Humberto Mariotti, originalmente publicada pela Édipo – Edições Populares Ltda. em fevereiro de 1951. Republicado em livro por A Fagulha, de Campinas-SP, editora do Movimento Universitário Espírita (MUE), em 1971.)

Resenha elaborada por Alessandra Mayhé

3 comentários:

  1. Apesar da complexidade do texto, aprendi mto com a abordagem cientifica feita por Jose Herculano Pires aa prefaciar a obra de Mariotti.

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    1. Também comecei a ler um livro dele. Vou retomar a leitura. Achei bastante complexo mesmo.

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  2. ~A função do espiritismo, portanto, seria a “renovação integral do homem, não apenas do homem na sua expressão individual e transitória, mas na sua permanente expressão coletiva”.~

    Já leram O Espírito e O Tempo, dele também? Vou recomeçar a ler em breve. Fica aí a dica para uma resenha.

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